quarta-feira, 8 de agosto de 2007


Zefa e suas irmãs gostavam de passear no mato. Só não gostavam quando Tonha comia Urtiga e ficava engasgando, um misto de choro e falta de ar. “Discuidei dela só um tiquin” – retrucava Beta, quando Zefa olhava sem esperanças pra Irmã.
“Beta, a gente ainda mata essa minina...”. Mas eram tempos felizes, até mesmo quando esqueciam Tonha no mato e três dias depois alguma alma boa dos sítios vizinhos vinham trazê-la de volta. “achei essa minina lá na pastage... achei paricida cum as minina daqui, então trouxe pra vê se é de vocês. Tava danada comendo aveloz...”
E assim a vida ia passando no Sítio Timbunga, tudo felicidade só.
Zefa sempre foi cuidadosa com suas irmãs, como toda irmã mais velha costuma fazer. Era toda conselhos:
“Beta, num lave os peito nessa cacimba que aí ta cheio de prezepe. De noite eu escuto os cururu cantado aí dentro”.
E ainda ajudava quando seus sábios conselhos eram ignorados:
“Ispreme esse caju em cima que a sanguessuga solta”.
Sábia por natureza, Zefa desde cedo mostrou seus dotes como uma boa dona de casa, além de ter dons mediúnicos os quais todos admiravam. Gostava de entreter as coleguinhas com suas visões:
“tem um sprito andando do teu lado” ou “ vi uma mulher com os pés de bode andando ontem aqui nessa estrada”. As meninas ficavam maravilhadas, embora nunca mais quisessem voltar da escola com ela às seis horas da tarde. Ou hora nenhuma.
Mas Zefa não sentia falta, pois tinha suas irmãs para lhe fazer companhia, e podia contar com elas em qualquer situação. Tonha, a caçula, dava muito trabalho: apesar dos seus três anos, era muito esperta e destemida. Vez por outra Zefa tomava-lhe das mãos uma cobra ou outro bicho peçonhento. “eita minina pra gostá de pegá em presepe!”, ralhava Zefa, preocupada. Beta, com a tranqüilidade inerente dos paquidermes, levantava hipóteses: “é que essas cobras coral são tão colorida... a bixinha acha bonitinha”.
Tonha, a caçula, chegou à família quando Beta e Zefa já estavam crescidas. Por isso às vezes elas esqueciam dela. Mas só de vez em quando.
Tá certo que uma vez deixaram a menina numa várzea. Foram com ela, voltaram sem ela. Uma semana depois, Dona Efigênia, mãe das garotas, achou algo estranho, enquanto ia pra missa num domingo de manhã. “Tenho certeza que isquicí de alguma coisa. Será que num vesti as calçola?”. O pai, Seu Murim, num tom quase tibetano respondeu: “faz uns três dia que num vejo a minina piquena... cumé mermo o nome dela?”
Encontraram Tonha dormindo feito um anjo em cima de um formigueiro, tava tão tranqüila que nem sentia as saúvas comendo suas orelhas. Depois disso Zefa decretou: “temo que ter mais cuidado cum essa danada.”
Beta era a filha do meio. Robusta, de costas enganaria um rinoceronte macho sem maiores problemas. O ar sóbrio e austero da garota escondia uma ternura e delicadeza sem precedentes. Mas seus dotes físicos sempre lhe impeliram para esportes mais radicais, como rachar troncos com a testa e domar feras ensandecidas só pra divertir a vizinhança. Era um amor, a não ser quando ficava irritada, o que era raríssimo. Dizem que na idade de doze anos foram necessários oito homens para segurá-la, num momento de descontrole momentâneo. Hoje ela tem 35 e não se sabe ao certo quantos seriam necessários pra fazê-lo.
Zefa, como a filha mais velha, era responsável pela educação e cuidados com as mais novas. Equilibrada, sempre resolvia as coisas com serenidade e bom senso. Nunca se viu Zefa com raiva ou irritada. E nunca ninguém quis ver, pelo menos até hoje.

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